Muito é dito sobre a feliz cidade: como encontrá-la, como vivê-la e nela viver. Uns dizem que o esporte pode nos levar até lá, outros dizem que uma alimentação saudável é a direção correta. Já alguns falam que a feliz cidade existe quando se é livre. Tem gente que ousa dizer que a feliz cidade está em papéis coloridos números escritos neles.

Eu, porém, digo que o caminho para a feliz cidade não existe. Muito menos existe a feliz cidade. Ela não está em lugar algum nessa vida. Repito: a feliz cidade não existe. A feliz cidade não está pronta, ela não está dentro de nós ou de uma garrafa de vidro com uma rolha de camurça como tampa. Nunca ninguém irá encontrar o caminho para feliz cidade.

Isto porque a feliz cidade não existe até que a construamos dentro de nós. No início tudo o que temos é um terreno pedregoso e desnivelado. Nesse terreno há buracos e muita lama. Vivem nele insetos peçonhentos que nos apavoram e nos consomem. Há um vento frio que nos faz arrepiar os pelos do corpo, e junto ao vento frio um sol forte que arde nossa pele.

Para vivermos na feliz cidade primeiro precisamos construí-la. Cada ser humano precisa construir a sua, e cada feliz cidade construída é diferente da do outro ser humano. Não há um plano piloto para a feliz cidade: cada ser humano constrói a sua, do seu jeito, com o que tiver.

A construção da feliz cidade requer o tempo de uma vida inteira. Não há como ser feito sozinho, a não ser que você viva numa ilha na qual seja o único animal de sua espécie. É necessário paz e ciência. Não se pode contar o tempo no calendário ou no relógio pois não há prazo para terminar. A preocupação deve ficar de lado, porque qualquer um de nós somos inteiramente capazes de construir a feliz cidade. Contudo, será frágil a feliz cidade daquele que tentar construí-la sozinho.

Quem poderá lhe ajudar nessa empreitada? Não escolha o outro como quando escolhe uma roupa ou o almoço no cardápio. O outro não precisa lhe apresentar um currículo exemplar para poder fazer parte de sua equipe. O outro tem defeitos horríveis e também está tentando construir a feliz cidade dele, assim como você. O outro tem qualidades belíssimas e também está tentando construir a feliz cidade dele, assim como você. O outro não é escolhido, é encontrado! O sinal começa com um contato visual, um sorriso. Se o sorriso do outro atingir seu coração, estão é ele. Contudo o outro dificilmente irá se oferecer, você que deve pedir. Humildade em pedir ajuda ao outro é fundamental. Peça ajuda com um contato visual, olho no olho, um bom dia e um sorriso.

O trabalho deve ser compartilhado. Cada um deve dividir sua cruz com o outro, e o outro com o um. Os terrenos devem ser reconhecidos, mapeados. Num dia tira-se as pedras do terreno do um, no outro dia tira-se as pedras do terreno do outro. Nivela-se o terreno, inicia-se uma nova fase. Você é o arquiteto, o engenheiro, o pedreiro e o servente da sua feliz cidade, o outro está apenas para lhe ajudar quando for preciso. O outro não pode construir a sua feliz cidade, pois se o outro fizer isso, a feliz cidade não será sua, mas do outro. Assim o outro pode apenas lhe apoiar, lhe ajudar a virar a massa ou segurar uma estaca de madeira, não muito mais do que isso. Porém o que parece pouco é fundamental, pois não há como segurar uma estaca de madeira e ao mesmo tempo virar a massa sozinho.

Muito trabalho, não é fácil. Exige dedicação e serenidade, exige paz e ciência. Mas sim, é perfeitamente possível você construir sua feliz cidade. Viva a construção, compartilhe o que deu certo com o outro, pergunte quando não souber o que fazer, chore, grite, pule de alegria, sorria, brigue, ame, faça carinho, fale, ouça. Tudo isso faz parte da construção. Seja obediente. Evite o orgulho, ele é um dos insetos peçonhentos que nos consome e nos envenena.

Após bastante esforço, eis que parece ter terminado de construir a feliz cidade. Alegre-se! Você conseguiu construir a sua! Parabéns! Agora cuide dela, limpe os caminhos, recolha o lixo, ilumine-a. Aceite visitas em sua feliz cidade, compartilhe-a com o outro! Não cerque sua feliz cidade com muros altos e arame farpado. Deixe as crianças roubarem as mangas da sua arvorezinha. Acolha o outro em sua feliz cidade, não viva só na sua feliz cidade, divida-a, ou melhor, some-a com o outro!

O trabalho ainda não terminou: uma vez construída, ela precisa sempre estar em evolução, é uma obra que nunca termina, por isso não se conta o tempo, não há prazo para terminar, não há pressa para terminar, pois nunca irá acabar. Sempre será necessário trabalho e a presença do outro.

E como ponto final, digo que mais importante do que se esforçar para terminar a construção, mesmo sabendo que nunca acabará, é viver a construção, apreciar o que fez ao final do dia, mesmo que pareça ter sido nada, ou até que tenha sido nada mesmo. Até o nada pode ser algo. Viva a eterna construção da feliz cidade. Não a compre-a, pois nunca será verdadeira. Construa a sua, viva a construção da sua feliz cidade com o outro!