Nunca soube ao certo como viver, então passei a tirar o desnecessário, simplificar as coisas e assim restou o conviver. Mas o que é desnecessário? Sei lá. Algumas coisas não me fazem tanta falta quanto outras, portanto devem ser desnecessárias. E a simplificação? Bom, isso é complexo demais. Simplificar não está sendo tão simples para mim. Admiro quem conseguiu ver a beleza em qualquer coisa, sorrir sem ter motivo. Acho que essas pessoas conseguiram de algum modo simplificar seu ser. Talvez um bom modo para isso seja não ficar fissurado na mudança. Apenas deixar o correnteza da vida me levar para onde deva ir e ser grato por isso. De gratidão sim, essas pessoas estão cheias. A gratidão deve ser o segredo!

A tão sonhada felicidade plena não existe neste mundo, apenas no Mundo de lá que vem depois desse, na próxima esquina. Assim não encontrarei ela aqui, mas posso seguir em Sua direção e sentir um pouco do seu cheiro. É uma trilha difícil e é feita descalço. Nessa trilha não posso carregar muito peso (ou massa para os amigos físicos), pois não aguentaria. Ir sozinho geralmente não me parece dar muito certo. Algumas coisas são feitas para serem divididas, e assim é com a tal da felicidade. Seria um grande egoísmo querer a felicidade toda só para mim. O caminho para felicidade provavelmente não será feliz. Com certeza vou pisar em algum graveto, ser atacado por abelhas ou formigas comerão meu almoço antes de mim. Devo estar preparado mas não me preocupar com as adversidades. Uma coisa é certa, há sempre Alguém para dar uma força.

Seja qual for as dificuldades que eu passar para chegar lá, elas não serão culpa minha nem do pobre ninguém. Contudo, apenas será minha culpa se não me esforçar suficientemente para supera-las e ser humilde para pedir ajuda ou ajudar quem for preciso. Para viver preciso conviver. Não carregar nas costas o que não preciso ou o que me faz mal. Uma boa forma de tirar o peso é pedir perdão ou perdoar, mesmo que seja a mim mesmo, o que é mais difícil. Preciso partilhar, dividir. Ser grato pelo o que a Vida me propõe. Não necessariamente preciso ser livre ou fazer o que eu quiser, algo deve estar atrelado a mim como a correnteza. Os limites existem e devo respeitá-los.

Às vezes acho que devo ser como um cãozinho. Humilde, grato. Dar tudo de mim e pular de alegria para quem está comigo. Perdoar aqueles que não estão. Nunca vi um cãozinho se vingar. Defender com unhas e dentes os que eu amo, mesmo quando o perigo for maior que eu. Se contentar com uma simples volta no quarteirão, e mais ainda se tiver um pneu novo para registrar. Não depender de objetos, a não ser que seja um chinelo velho com cheiro de chulé. Aceitar a coleira, ela é o meu limite, sem ela eu faria muitas besteiras. Se eu estiver sozinho pela rua, não desistir, continuarei convivendo. Se alguém me oferecer carinho, aceitar com todo prazer e lambê-lo por isso. Os cãezinhos são bons farejadores, eles devem ter farejado o cheiro da felicidade e estão seguindo Seu rastro. Parece funcionar para eles, talvez também funcione comigo.